SOBRE A RESSONÂNCIA MAGNÉTICA

SOBRE A RESSONÂNCIA MAGNÉTICA

José Fernandes de Lima[1]

Alguns leitores que leram o artigo “Exames de Imagem” comentaram que o exame que eles mais temiam era aquele da ressonância magnética. 

Refletindo sobre as possíveis causas daqueles comentários, conclui que caberia falar um pouco mais sobre o citado exame. 

Embora a ressonância magnética possa provocar um misto de curiosidade e receio, a verdade é que ela é uma das ferramentas mais seguras da medicina moderna.

Para quem vê de fora, a cena parece saída de um filme de ficção científica: uma grande máquina cilíndrica, barulhos ritmados que lembram uma música eletrônica experimental e um paciente deitado numa cama que se desloca através de um cilindro, esperando a mágica do exame acontecer. 

Diferentemente do raio – X e da tomografia, a ressonância não utiliza radiação ionizante. Ela trabalha combinando um campo magnético muito potente com ondas de radio. O equipamento estimula as moléculas de água do nosso corpo e transforma os sinais resultantes em imagens de altíssima definição de órgãos, tecidos moles, ligamentos e até do cérebro.

Os fenômenos físicos fundamentais do exame ocorrem nas seguintes etapas: 

Os prótons presentes no núcleo dos átomos de hidrogênio possuem uma propriedade mecânico-quântica chamada spin. Cada prótons se comporta como se fosse um pequeno ímã. Em condições normais, os spins de todos os bilhões de prótons do nosso corpo estão apontando para direções completamente aleatórias. O resultado líquido é que seus efeitos se cancelam e o nosso corpo não tem magnetismo próprio. 

O campo magnético é medido em Tesla (T). Os aparelhos clínicos utilizados nos exames de ressonância operam entre 1,5 T e 3,0 T, ou seja, operam com campos cerca de 30.000 e 60.000 vezes mais fortes que o campo magnético da Terra. 

Desse modo, quando o paciente entra no tubo de ressonância magnética, ele é submetido a um campo magnético extremamente forte e constante.

Sob a força do campo magnético externo, os prótons de hidrogênio presentes no corpo do paciente se alinham ao longo do campo. Essa orientação cria um vetor magnético na direção do tubo de exame, chamado de Magnetização Longitudinal.

Devido ao torque exercido pelo campo magnético, o eixo dos prótons começa a girar em torno da direção do campo externo, fazendo o movimento chamado de “precessão” – um movimento semelhante àquele que faz o pião quando gira em torno de seu eixo e gira também em torno de um eixo vertical. A frequência da precessão depende diretamente da intensidade do campo externo. Em um aparelho de 1,5T, os prótons de hidrogênio giram com uma frequência de aproximadamente 64 MHz, que é uma frequência da faixa das ondas de rádio.

Para extrair informações desses prótons, a máquina envia um pulso de ondas de rádio na mesma faixa de frequência calculada para aqueles prótons. Quando a frequência da onda externa coincide com a frequência natural de precessão do próton, ocorre o fenômeno da ressonância.

O pulso de radiofrequência aplicado causa os seguintes efeitos:

Alguns prótons no estado de baixa energia absorvem os fótons de radiofrequência e saltam para um estado de alta energia. Isso reduz a magnetização longitudinal. Quando ocorre a sincronização de fases, os prótons que antes “precessavam” fora do ritmo passam a girar em fase. Isso cria um vetor magnético perpendicular ao campo principal, chamado magnetização transversal.

Quando o pulso de radiofrequência é desligado, os prótons tendem a voltar ao seu estado de equilíbrio original. Esse processo é chamado relaxamento. À medida que os prótons perdem a sincronia de fase e voltam a se alinhar com o campo externo, a magnetização transversal começa a oscilar e decair. 

Esse campo magnético oscilante gera uma corrente elétrica nas antenas colocadas sobre o paciente. O sinal resultante dessa corrente elétrica é decodificado com o uso de equações matemáticas conhecidas como Transformadas de Fourier e convertido em imagens de alta resolução. 

Como os diferentes tecidos (água, gordura, tendões, ossos) relaxam em tempos diferentes, a máquina consegue diferenciar com extrema precisão um tecido do outro e diferenciar um tecido saudável de uma lesão.

O ímã do aparelho é tão forte que atrai qualquer objeto metálico não fixo. Por isso, brincos, chaves e cartões com tarja magnética devem ficar bem longe da sala de exame.

O barulho gerado quando as bobinas magnéticas são ligadas e desligadas continua sendo um problema. Algumas clínicas passaram a oferecer fones de ouvido através dos quais os pacientes podem ouvir música e relaxar durante o exame. 

Apesar do incômodo, o exame de ressonância é indolor e seguro.

Embora o valor do exame seja superior ao de exames radiológicos convencionais, o custo-benefício é muito bom.  A precisão da ressonância frequentemente evita cirurgias exploratória e diagnósticos equivocados. 



[1] Físico e Professor 

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