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SOBRE BOTÕES

SOBRE BOTÕES  José Fernandes de Lima [1] Muitas vezes, a gente se acostuma com determinado objeto e fica pensando que ele sempre existiu ou que ele existe em toda parte.  Um bom exemplo disso é o botão. Eu estou falando do botão que usamos para ajustar e para prender nossa roupa. Em geral, ele é redondo e prende a roupa quando é alojado na “casa”.  Se o leitor baixar um pouco a vista em direção ao seu corpo, poderá ver os botões da sua camisa ou da sua blusa. Eles estão ali de prontidão, cumprindo um papel importante na definição da nossa elegância e, muitas vezes, trafegando entre o chic e o ridículo. Antigamente, em toda casa havia uma lata de biscoitos ou uma caixa de madeira que, ao ser aberta, revelava um verdadeiro tesouro de botões. Era a lata de costura da vovó.  Hoje, estamos tão acostumados a gastar fortunas com tecidos tecnológicos e com grifes internacionais que deixamos de perceber que nossa dignidade pode estar, literalmente, por um fio. Muitas vezes, o...

A GATA E O AGENTE

A GATA E O AGENTE. O filme “O Agente Secreto”, além de abordar acontecimentos do período da ditadura militar, trouxe várias informações cifradas que se reportam à memória do diretor Kleber Mendonça Filho sobre aquele período, a exemplo das referências aos filmes que marcaram a sua juventude. Dentre as referências mais cifradas trazidas pelo filme, destaca-se a presença de uma gata que tem duas faces. A dona da casa trata-a como se fossem duas gatas e as chama LIZA e ELIS. Alguns críticos afirmaram que a gata personifica o estado de paranoia e vigilância do Brasil de 1977.  Sob uma ditadura, as pessoas e as coisas raramente são o que parecem ser.  O próprio personagem Marcelo/Armando vive uma vida dupla.  A gata de duas faces conecta as duas linhas temporais do filme: a narrativa de suspense no passado e a pesquisa acadêmica no futuro.  A gata funciona como um Janus moderno da narrativa. Uma guardiã dos portais entre o que o Brasil foi e o que o Brasil se to...

SOBRE AS FILAS QUE ANDAM

SOBRE AS FILAS QUE ANDAM José Fernandes de Lima [1] Diante das câmeras de televisão e angustiada com aqueles microfones, ao ser questionada por que seu filho, jogador famoso de futebol, havia trocado de namorada, a zelosa mãe filosofou: “porque a fila anda”. A expressão “a fila anda” foi popularizada por causa da música cantada pelo Leonardo, que, entre outras coisas, afirma:  Foi você quem quis assim Abusou demais, pisou em mim Doeu e aí, então, saltei de banda A fila anda, a fila anda, a fila anda. Ao compor essa canção, os autores Elias Muniz, Fátima Leão e Adriano Bernardes sugeriram que o passar do tempo iria causar mudanças e que alguém seria punido com a substituição.  No Funk “Desce Tequila”, cantado pelo Mc MM, o autor é mais direto quando diz:  “O mundo gira e a fila anda e alguém vai perder a vez”.  Nos dois casos, a afirmação de que a fila anda funciona como uma defesa emocional contra o luto e a rejeição. Parece que o indivíduo, depois de ser rejeitado, ...

UM MUNDO PROJETADO AO CONTRÁRIO

UM MUNDO PROJETADO AO CONTRÁRIO José Fernandes de Lima [1] Se o número de leitores desse blog fosse maior, eu poderia afirmar que 10 de cada 100 deles teriam um interesse muito especial por este artigo, porque tratamos de um assunto que eles conhecem muito bem. Faço essa afirmação porque a literatura nos informa que 10% das pessoas são canhotas. Segundo estudos arqueológicos, essa proporção é a mesma desde 500 mil anos. Os canhotos utilizam preferencialmente a mão esquerda para fazer a maioria das atividades diárias. Ser canhoto não é uma escolha, tampouco é um hábito.  Trata-se de uma condição genética. Até o momento, a ciência ainda não sabe explicar por que existem os canhotos e porque 90% das pessoas são destras. Não existe um único “gene do canhoto”, mas sim uma rede complexa de variantes genéticas que decidem a condição de canhoto.  Vale a pena insistir que a lateralidade não é uma escolha. Embora a lateralidade já venha com a criança desde o nascimento, não podemos...

MONITORAMENTO ELETRÔNICO E TORNOZELEIRA

MONITORAMENTO ELETRÔNICO E TORNOZELEIRA José Fernandes de Lima [1] Notícias recentes apontam o aumento do número de pessoas famosas que passaram a ser monitoradas eletronicamente, em decorrência de determinações judiciais.  A tornozeleira eletrônica, usada para esse fim, é um equipamento que monitora, em tempo real, os passos de pessoas que receberam autorização para cumprir pena fora dos limites da prisão tradicional.  O funcionamento da tornozeleira é baseado no uso do GPS e na triangulação de antenas de celular. O equipamento utiliza essas tecnologias para enviar sinais constantes a uma central de monitoramento, onde agentes acompanham em tempo real a localização do indivíduo monitorado. O dispositivo é preso ao tornozelo por uma cinta de material resistente com trava especial e contém um sistema que detecta tentativas de remoção ou rompimento. Caso haja alguma violação, como retirada, danos ao equipamento ou tentativa de violação, o sistema emite alertas imediatos par...

ARMAZENAMENTO DE DADOS EM VIDRO

ARMAZENAMENTO DE DADOS EM VIDRO José Fernandes de Lima [1] As notícias sobre a criação de data centers deixam, na maioria das vezes, de destacar a importância dos processos físicos utilizados na escrita e no armazenamento de dados, que resultam em maior ou menor estabilidade e duração dos dados armazenados.  A preocupação com a preservação de informações remonta à idade antiga. Antes da era digital, as mídias já tinham evoluído, tendo como substrato a pedra, a madeira e a argila. O papel foi inventado na China por volta de 105 d.C. e permitiu a escrita portátil e duradoura. Uma evolução acelerada dos processos de armazenamento de dados teve início nas décadas de 1940 e 1950, quando foram inventados os cartões perfurados e as primeiras fitas magnéticas. No período entre1950 a 1980, surgiram os discos rígidos de armazenamento aleatório magnético que evoluíram rapidamente em densidade e custo.  Quando falamos do armazenamento de dados digitais, logo lembramos que, em 1971, a IBM ...

DESCONFORTO VOLUNTÁRIO

DESCONFORTO VOLUNTÁRIO  José Fernandes de Lima [1] A busca pela comodidade é muito antiga. Nossos ancestrais precisavam economizar energia para sobreviver e em consequência dessa necessidade passaram a utilizar a chamada lei do menor esforço.   A descoberta das tecnologias nos poupou do esforço físico e nos trouxe até os dias atuais. Agora, a revolução da informação promete nos poupar do esforço cognitivo. Apesar do ambiente ter mudado, o nosso cérebro continua buscando o caminho do menor esforço. Temos muita facilidade para nos acostumarmos com o que é confortável. É por isso que estamos sempre em busca de novas comodidades. A busca pela comodidade foi levada tão a sério que, nos dias de hoje, podemos contar com a comodidade de pedir comida pelo celular, controlar a temperatura do ambiente em que estamos mediante o uso de um ar-condicionado que atende ao comando de voz e podemos ouvir música ou assistir filmes selecionados por um streaming que entende, melhor do que nós,...