EDUCAÇÃO ESCOLAR E QUALIFICAÇÃO PARA O TRABALHO

EDUCAÇÃO ESCOLAR E QUALIFICAÇÃO PARA O TRABALHO

José Fernandes de Lima[1]

De acordo com os manuais de Física, trabalho pode ser compreendido como uma grandeza que mede a transferência de energia para um objeto por meio da aplicação de uma força que realiza um deslocamento. Nesse sentido, o trabalho está associado com às transformações que acontecem no universo. Sempre que algo no universo muda, podemos dizer que houve um trabalho. 

O ser humano, como ser vivo que é, tem a capacidade de realizar trabalhos. O trabalho realizado pelo ser humano, além de modificar o mundo ao seu redor,  pode trazer benefícios materiais, emocionais ou psicológicos. Há quem afirme que o trabalho é o meio de subsistência material e de inserção social na estrutura moderna.

Do ponto de vista da sociologia, o trabalho é a atividade humana pela qual o ser humano transforma a natureza, produz sua própria existência e cria cultura. Nesse sentido, o trabalho contribui para a realização da própria dignidade humana.

As dificuldades apareceram quando os trabalhos passaram a ser hierarquizados pela sociedade. Alguns humanos aprenderam maneiras de se apoderar do trabalho alheio e determinados trabalhos passaram a ter mais valor do que outros. 

O fato de os trabalhos terem compensações diferentes faz com que as pessoas desejem fazer um tipo de trabalho e não outro.

Para fazer determinados trabalhos que compensam (remuneram) melhor, é preciso adquirir certas competências, ou seja, é necessário obter certa qualificação. Essas competências referidas podem ser adquiridas no próprio local de trabalho ou na escola. A tarefa de qualificação das pessoas para realização dos trabalhos considerados relevantes para determinadas sociedades foi atribuída à escola. 

A Constituição Federal (1988) afirma que a educação será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Esse ordenamento foi retomado no Art. 2º da Lei no 9.394/1996, de Diretrizes e Bases da Educação nacional (LDB).

Diante dessa reiterada afirmação, cabe-nos refletir sobre o significado da expressão “qualificação para o trabalho”. 

Numa primeira aproximação, os estudiosos afirmam que “qualificar para o trabalho” significa dar ao estudante a capacidade de compreender o mundo produtivo e tecnológico que o cerca, permitindo que ele seja um agente ativo no processo de transformação, e não um mero espectador passivo ou uma peça descartável na engrenagem econômica. 

Em outras palavras, quando a Lei fala de “qualificação para o trabalho” está querendo dizer que a escola deve garantir que o cidadão tenha as competências necessárias para obter sua autonomia laboral e sua independência econômica. No entendimento dos educadores, “qualificar” significa instrumentalizar o sujeito para que ele se reconheça como produtor de cultura, ciência e riqueza, garantindo que sua força de trabalho seja uma extensão de sua liberdade.  

As expectativas de que a escola funcione como um local de preparação para o trabalho tornam-se cada vez mais evidentes. Os documentos recentes produzidos pelo MEC e pelo CNE apontam que devemos investir para facilitar a trajetória escolar dos estudantes e para favorecer a transição da escola para o trabalho. 

Uma forma de a escola cumprir a tarefa que lhe foi atribuída pela Constituição e pela LDB é promover a simulação das atividades reais que o estudante irá encontrar no mundo do trabalho. Adotar a ideia de escola como um espaço de simulação da vida real e do mundo do trabalho implica entendê-la como um espaço seguro de experimentação e desenvolvimento.

Essa concepção já foi usada por Anisio Teixeira, para quem a única forma de aprender a viver em sociedade e a trabalhar era vivenciando essas dinâmicas, de forma controlada e pedagógica, dentro do espaço escolar. Nesse sentido, ele propunha que a escola fosse organizada como uma comunidade viva.  

Uma simulação adequada é aquela que usa o trabalho como princípio educativo e busca a autonomia dos indivíduos. Em outras palavras, encara a qualificação para o trabalho como algo que vai além do ensino de profissões. Nesse modelo do espaço de simulação, a escola funciona como um laboratório protegido. Enquanto na vida real os erros podem custar empregos, processos judiciais ou prejuízos financeiros, na escola, o erro faz parte do aprendizado.

Quando a escola adota metodologias ativas, ela simula a dinâmica do mundo produtivo atual. Organizar-se em equipes, cumprir prazos, gerenciar recursos e defender uma ideia em público reproduzem exatamente o modus operandi dos ambientes profissionais modernos, mas com o suporte dos colegas e de um mediador(a): o(a) professor(a). 

É preciso garantir que a simulação tenha o caráter emancipatório e estimule o potencial criativo do aluno. É preciso se afastar da lógica de fábrica adotada por muitas escolas atuais, que organizam suas atividades mediante regras rígidas de comportamento e obsessão pela produtividade, onde o aluno é treinado para consumir conteúdos de forma rápida e superficial para acumular grandes volumes de dados e responder a exames. 

Uma escola que simule a vida real nos dias de hoje não pode ignorar a crise civilizatória e ecológica em que vivemos. Por isso, preparar para o trabalho não pode significar treinar indivíduos para alimentar um modelo predatório. 

A simulação escolar legítima deve introduzir a linguagem da urgência: como trabalhar, produzir e conviver de forma sustentável, ética e humana frente aos avanços de tecnologias avassaladoras, como a inteligência artificial.

A rapidez com que as novas tecnologias são desenvolvidas transforma o mundo do trabalho num ambiente de grande incerteza. Profissões que hoje são praticadas deixarão de existir e novas formas de trabalho definirão o nosso futuro. 

Em assim sendo, o ambiente escolar precisa favorecer a criatividade contínua capaz de preparar para o futuro de incertezas. A prática da iniciação científica, artística e desportiva é um caminho a ser seguido.

Para além dos cuidados listados acima, é necessário observar que as transformações aceleradas pelas quais passa o mundo do trabalho afetam de maneira distinta as diferentes juventudes brasileiras. Fatores como raça, renda, gênero e escolaridade afetam significativamente as oportunidades de emprego para os nossos jovens. Nesse sentido, a escola precisa estar atenta para não reproduzir as desigualdades. 

O espaço de simulação que propomos não deve ser uma simples cópia do mundo lá fora. Deve ser um espaço que olha para a vida real e para o mundo do trabalho, compreende suas engrenagens e oferece aos estudantes as ferramentas teóricas e críticas para que eles possam, no futuro, transformar essa realidade, e não apenas se adaptar a ela. 



[1] Físico e Professor

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