UM MUNDO PROJETADO AO CONTRÁRIO

UM MUNDO PROJETADO AO CONTRÁRIO

José Fernandes de Lima[1]

Se o número de leitores desse blog fosse maior, eu poderia afirmar que 10 de cada 100 deles teriam um interesse muito especial por este artigo, porque tratamos de um assunto que eles conhecem muito bem. Faço essa afirmação porque a literatura nos informa que 10% das pessoas são canhotas. Segundo estudos arqueológicos, essa proporção é a mesma desde 500 mil anos.

Os canhotos utilizam preferencialmente a mão esquerda para fazer a maioria das atividades diárias. Ser canhoto não é uma escolha, tampouco é um hábito.  Trata-se de uma condição genética.

Até o momento, a ciência ainda não sabe explicar por que existem os canhotos e porque 90% das pessoas são destras. Não existe um único “gene do canhoto”, mas sim uma rede complexa de variantes genéticas que decidem a condição de canhoto. 

Vale a pena insistir que a lateralidade não é uma escolha. Embora a lateralidade já venha com a criança desde o nascimento, não podemos afirmar que seja totalmente genética porque há gêmeos idênticos com lateralidades contrárias. Podemos encontrar dois gêmeos idênticos que escrevem com mãos diferentes. 

Deve haver uma razão pela qual a evolução manteve um pequeno percentual de canhotos que vem se mantendo ao longo do tempo.

Os ambidestros, que utilizam igualmente as duas mãos, são apenas 1% da população.

Do ponto de vista neurológico, verifica-se que enquanto a maioria dos destros tem o processamento de linguagem concentrado no hemisfério esquerdo, os canhotos tendem a ter uma distribuição mais equilibrada ou até invertida, o que pode influenciar a forma como processam as informações. 

O fato de os canhotos serem minoria coloca-os em desvantagem na hora de fazer alguma coisa como usar uma tesoura, usar o mouse e outros utensílios domésticos.

Ao longo da história, os canhotos foram muito discriminados. A própria linguagem condena o lado esquerdo. No Latim, esquerdo se diz “sinister”, que deu origem a palavra sinistro. Enquanto isso, o destro é associado a habilidade e retidão.

Até poucas décadas atrás, escolas e famílias forçavam as crianças a escrever com a mão direita, muitas vezes com castigos físicos, o que gerava traumas e dificuldades de aprendizagem. Escrever com a mão esquerda era associado com bruxaria e com criminalidade. 

Ainda hoje, o mundo continua sendo feito para os destros. O design industrial ignora essa parcela da população. Alguns instrumentos são totalmente inadequados para o uso dos canhotos como acontece com as guitarras, as câmeras fotográficas e os abridores de lata. 

Os objetos do cotidiano são projetados para destros e por isso dificultam a vida dos canhotos que precisam fazer adaptações desconfortáveis. Nas câmeras fotográficas, o botão de disparo e os principais controles de ajuste ficam invariavelmente no lado direito do corpo do aparelho. O violão e a guitarra exigem que o canhoto inverta as cordas e a estrutura do instrumento ou aprenda a tocar como um destro.  O mouse do computador foi desenhado para destros. Nas catracas do metrô, o sensor para validar o bilhete ou o cartão quase sempre está posicionado à direita da entrada. 

As próprias escolas, que se pretendem um espaço de inclusão, ainda não se adaptaram. A maioria das escolas não está preparada para receber as pessoas canhotas. As cadeiras de braço têm o espaço da escrita sempre do lado direito. O canhoto que necessita escrever tem que fazer contorcionismos. 

Tudo se passa como se o canhoto vivesse em um mundo projetado ao contrário. Isso molda desde sua estrutura cerebral até a forma como ele interage com os objetos. 

Por serem forçados a se adaptar desde cedo, canhotos desenvolvem uma flexibilidade cognitiva e uma habilidade de resolução de problemas muito aguçada. Os canhotos costumam se destacar em esportes de oposição (tênis, boxe, esgrima) devido ao tempo de reação e ao ângulo de ataque incomum para o adversário destro.

Há quem diga que os canhotos possuem uma melhor noção espacial e são melhores com números e matemática. Nessa mesma linha, afirmam que os canhotos tendem a escolher as profissões que exigem mais criatividade.

Dentre os canhotos ilustres, destacam-se: Leonardo Da Vinci, Maria Curie, Isaac Newton, Jimi Hendrix, Ayrton Senna, Bill Gates, Ludwig Van Beethoven, Machado de Assis, Maradona, Barack Obama, Lady Gaga, Nicole Kidman e Paul McCartney.

A lateralidade é uma forma de diversidade humana. Ser canhoto não é uma falha do sistema, mas uma variação biológica que traz uma perspectiva única para solução de problemas no mundo. 



[1] Físico e Professor

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