SOBRE AS FILAS QUE ANDAM

SOBRE AS FILAS QUE ANDAM

José Fernandes de Lima[1]

Diante das câmeras de televisão e angustiada com aqueles microfones, ao ser questionada por que seu filho, jogador famoso de futebol, havia trocado de namorada, a zelosa mãe filosofou: “porque a fila anda”.

A expressão “a fila anda” foi popularizada por causa da música cantada pelo Leonardo, que, entre outras coisas, afirma: 

Foi você quem quis assim

Abusou demais, pisou em mim

Doeu e aí, então, saltei de banda

A fila anda, a fila anda, a fila anda.

Ao compor essa canção, os autores Elias Muniz, Fátima Leão e Adriano Bernardes sugeriram que o passar do tempo iria causar mudanças e que alguém seria punido com a substituição. 

No Funk “Desce Tequila”, cantado pelo Mc MM, o autor é mais direto quando diz: 

“O mundo gira e a fila anda e alguém vai perder a vez”. 

Nos dois casos, a afirmação de que a fila anda funciona como uma defesa emocional contra o luto e a rejeição. Parece que o indivíduo, depois de ser rejeitado, resolve reagir, trocar de parceira e seguir adiante. 

O tema das coisas que passam e da fluidez da vida foi abordado de uma forma mais abrangente pelo compositor Lulu Santos, na música chamada “Como uma onda no mar”, que inicia dizendo:

Nada do que foi será, 

De novo do jeito que já foi um dia.

Tudo passa, tudo sempre passará.

E a vida vem em ondas como o mar,

Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é 

Igual ao que a gente viu há um segundo..... 

Essa abordagem traz à tona uma discussão antiga, de mais de 2500 anos. 

Quando a música diz: “tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo”, ela está reproduzindo as ideias do filósofo grego Heráclito que dizia: “Ninguém cruza o mesmo rio duas vezes”. Naquele contexto, a fila estaria representada pelo rio.

Heráclito fala do devir e da impermanência. De acordo com suas ideias, o mundo estaria em perpétuo movimento.  Ao dizer que tudo flui, Heráclito sugere que a estabilidade é uma ilusão. 

Na física atual, há um conceito que guarda relação com a ideia de impermanência defendida por Heráclito. É o conceito de entropia, que aparece na segunda lei da termodinâmica. 

A segunda lei da termodinâmica é a única lei fundamental da física que distingue o passado do futuro. Ela afirma que a desordem (entropia) de um sistema isolado tende sempre a aumentar. Em termos de energia, ela diz que o calor flui espontaneamente do corpo quente para o mais frio, e que é impossível converter 100% de calor em trabalho. Todo processo real gera algum desperdício de energia na forma de calor. 

De acordo com a segunda lei, a entropia total do sistema sempre aumenta. Isso significa dizer que se olharmos a seta do tempo, veremos para que lado o mundo está caminhando. 

Nas leis da termodinâmica, “a fila que anda” é a representação macroscópica da seta do tempo. A energia dissipada não volta, o tempo não retrocede.

Em outras palavras, os pensamentos de Heráclito guardam relação com a ideia de entropia na medida que ambas tratam da natureza fundamental da mudança, do tempo e da transformação da energia.

A ideia de Heráclito e a entropia concordam que o desenvolvimento do universo é unidirecional. Não se pode voltar o filme. Assim, não se pode entrar no mesmo rio duas vezes, não se pode reverter um processo entrópico total sem gastar ainda mais energia.

Se Heráclito estivesse vivo hoje, ele provavelmente diria que a entropia não é uma vilã, mas uma prova física de sua filosofia; a evidência de que o universo está vivo, transformando-se e movendo-se incessantemente de um estado para outro, impedindo que a realidade se torne estática e sem vida.

Cabe destacar que: a vida é, por definição, uma luta contra a entropia. Organismos vivos criam “bolsões” de ordem, consumindo energia do ambiente, ao mesmo tempo que aumenta a entropia do universo ao redor. Os sistemas biológicos, que são sistemas abertos, precisam de um fluxo de entrada e saída para evitar sua morte térmica. Para que a fila ande, algo deve ser deixado para trás. A harmonia do sistema depende da tensão constante entre o que entra e o que sai.

Se quisermos trazer a ideia do fluxo e da impermanência para sala de aula, podemos lembrar que a escola é um ecossistema de grupos que se formam e se desfazem.

Se um grupo de amigos se afastou ou se um projeto terminou, podemos entender que novos espaços estão sendo abertos. Neste caso, deixar a fila andar é permitir que novas pessoas e perspectivas entrem na sua vida sem o peso do ressentimento pelo que passou. A fila vai andar na mudança de turmas, de ciclos e de interesses. 

Podemos, desse modo, argumentar que a educação para a sustentabilidade é uma forma de gestão ética do fluxo que garante que a fila continue andando para dar lugar às próximas gerações. 

Em outras palavras, a expressão popular “a fila anda” pode soar dura ou sinal de ressentimento, mas, filosoficamente, ela pode ser interpretada como uma referência à aceitação da impermanência.

 



[1] Físico e Professor

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