SOBRE LUZES E SOMBRAS

SOBRE LUZES E SOMBRAS

José Fernandes de Lima[1]

 

A sombra é formada pela ausência parcial de luz proporcionada por um obstáculo.  Quanto maior for a opacidade do obstáculo, maior o bloqueio da passagem de luz e mais nítida a sombra.  A forma e a intensidade da sombra dependem da posição e da intensidade da luz.

O conceito de sombra é fundamental para entender fenômenos como os eclipses ou a formação de imagens em câmeras fotográficas.

Na arte, a luz e a sombra são usadas para criar profundidade e realismo.  A manipulação da luz e da sombra pode ser utilizada para destacar ou esconder os detalhes de uma obra de arte.  É através do jogo de sombras que o artista evidencia os contrastes. 

MIchelangelo Merisi da Caravaggio, o pintor italiano conhecido por Caravaggio, ficou conhecido por utilizar contrastes extremos de luz e sombra nas suas pinturas. 

O teatro de sombras é uma forma antiga de arte que utiliza sombras projetadas para contar histórias. Trata-se de uma técnica que encanta e diverte, sugerindo formas e movimentos. 

A ideia das sombras projetadas foi utilizada por Platão em O Mito da Caverna, história na qual as pessoas estão amarradas numa caverna escura e as informações que recebem são apenas sombras projetadas.

Luzes e sombras são usadas metaforicamente para representar os aspectos positivos e negativos da vida. Elas simbolizam os altos e baixos.

Para quem mora nos trópicos, a sombra de uma árvore é uma verdadeira bênção.    Ela oferece alívio do calor e proteção contra a radiação solar. Sombra e água fresca é uma expressão que evoca a ideia de descanso e tranquilidade, e é geralmente associada a momentos de lazer em ambiente agradável, como debaixo de uma árvore. 

Os conceitos de luz e sombra parecem ser interdependentes. 

De acordo com o livro do Gênesis, a sombra é anterior à luz. “No início, a terra era sem forma e vazia, e havia trevas sobre a face do abismo. Então Deus disse haja luz, e houve luz. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas, chamando a luz de dia, e as trevas de noite.”

A separação entre luz e trevas descrita no livro do Gênesis não é apenas física, mas também simbólica. A luz represente a ordem e a vida, enquanto as trevas simbolizam o caos e a desordem.

Na ciência, a luz é uma forma de energia que viaja em ondas e pode ser refletida, refratada ou absorvida por diferentes materiais. A luz é fundamental para a visão. Sem luz, não podemos ver. A luz solar é uma fonte crucial de energia para a vida na Terra, alimentando o processo de fotossíntese. A exposição à luz solar ajuda na produção de vitamina D. 

A sombra, por sua vez, é criada quando um objeto bloqueia a luz, absorve a energia luminosa, formando uma área escura atrás dele.

O filme “Dias Perfeitos” é uma obra dirigida por Wim Wenders que traz uma reflexão profunda sobre a rotina e a vida cotidiana, centrando-se no personagem Hirayama, um zelador de banheiros públicos em Tóquio. O filme acompanha seu dia a dia simples, marcado por gestos silenciosos e uma forte presença no momento vivido, revelando uma crítica social sutil à competitividade, ao consumismo e à perda do sentido da vida moderna.

A cena em que Hirayama brinca com as sombras é um momento simbólico e poético do filme. Nessa cena, Hirayama e o ex-marido de Mama conversam sobre se as sombras sobrepostas ficam mais escuras, chegando à conclusão de que, embora faça sentido que se somassem, na realidade não acontece. 

Hirayama comenta que isso é “pura bobagem”. Essa cena serve como uma metáfora para o passado e o futuro em relação ao presente: as sombras representam dores e medos que, no fim das contas, não definem o momento presente dele.

As sombras funcionam como um símbolo do filme, remetendo ao jogo de luz e sombra que permeia a narrativa, à percepção da beleza oculta nas pequenas coisas e à ideia de que o presente é a única realidade com que realmente contamos, já que passado e futuro são conceitos abstratos. 

A brincadeira com as sombras entre Hirayama e o ex-marido de Mama simboliza a reflexão sobre o passado, o presente e o futuro, além da natureza ilusória das dores emocionais e medos que herdamos ou carregamos. As sombras sobrepostas, que eles comentam não ficarem mais escuras apesar da lógica sugerir o contrário, funcionam como uma metáfora para as experiências e traumas que, na prática, não se somam para definir o presente de forma definitiva. 

 



[1] Físico e Professor

Comentários

  1. É interessante como traduziram para o português, no Brasil, o título do filme "The Ghost and the Darkness" (vide Wikipédia, a enciclopédia livre https://share.google/eXEbFUQIBPQYDDKDW): A Sombra e a Escuridão. Na falta de luz, à noite, os leões atacavam.

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