SOBRE BOTÕES
SOBRE BOTÕES
José Fernandes de Lima[1]
Muitas vezes, a gente se acostuma com determinado objeto e fica pensando que ele sempre existiu ou que ele existe em toda parte.
Um bom exemplo disso é o botão. Eu estou falando do botão que usamos para ajustar e para prender nossa roupa. Em geral, ele é redondo e prende a roupa quando é alojado na “casa”.
Se o leitor baixar um pouco a vista em direção ao seu corpo, poderá ver os botões da sua camisa ou da sua blusa. Eles estão ali de prontidão, cumprindo um papel importante na definição da nossa elegância e, muitas vezes, trafegando entre o chic e o ridículo.
Antigamente, em toda casa havia uma lata de biscoitos ou uma caixa de madeira que, ao ser aberta, revelava um verdadeiro tesouro de botões. Era a lata de costura da vovó.
Hoje, estamos tão acostumados a gastar fortunas com tecidos tecnológicos e com grifes internacionais que deixamos de perceber que nossa dignidade pode estar, literalmente, por um fio.
Muitas vezes, o cidadão que veste um terno elegante, mostra-se imponente, mas esquece que sua imponência depende de um pequeno disco de plástico de dois centímetros de diâmetro, costurado no meio da barriga. Se o botão resiste, ele continua um doutor, se o botão salta, ele vira piada.
Na Grécia e na Roma Antiga, os botões eram usados apenas como enfeites e não para fechar roupas. Para isso, eram usados broches e alfinetes. Foi por volta do século XIII, que alguém teve a ideia de abrir uma fenda no tecido e criar a “casa” do botão. A partir daí, as roupas puderam ficar mais ajustadas ao corpo. O uso do botão como sistema de fechamento da roupa causou uma verdadeira revolução na silhueta humana.
Nos séculos XVII e XVIII, os botões alcançaram grande importância e passaram a ser utilizados em peças luxuosas feitas por ourives. Os reis gastavam fortunas mandando fazer botões de ouro e pedras preciosas.
Com a revolução industrial e, mais tarde, com a descoberta do plástico e da baquelite, o botão tornou-se popular. Perdeu o status de joia e ganhou utilidade no dia a dia. O botão da roupa é o verdadeiro guardião das nossas aparências, um operário silencioso da dignidade humana.
Para entrar ou sair da casa, o botão precisa estar numa dada posição relativa e é por isso que ele consegue segurar a roupa sem deixá-la cair.
Um paletó alinhado, um vestido elegante ou uma camisa engomada dependem fortemente da resistência de alguns milímetros de plástico, osso ou metal presos por dois ou três nós de linha. Muitas vezes, passamos horas escolhendo uma roupa, combinando cores, mas esquecemos que toda essa estrutura está sob a responsabilidade de um fio invisível.
Mais do que simplesmente unir partes de tecido, os botões são elementos fundamentais para a estética e elegância das roupas. Eles podem valorizar uma peça, conferindo-lhe sofisticação e personalidade. Botões de alta qualidade são duráveis e mantêm a beleza mesmo após várias lavagens e uso prolongado. Além disso, a escolha das cores, forma e materiais adequados pode realçar o design da roupa.
A capacidade de personalização, como gravação a laser, torna os botões ainda mais exclusivos, reforçando a identidade estética das peças e das marcas.
A pressa dos tempos atuais prefere o zíper ou o velcro, ao invés do botão que exige o tato, o tempo, o detalhe.
Há um ritual no ato de abotoar ou desabotoar. Abotoar os botões da camisa de manhã, um por um, funciona como um exercício de preparação para o dia de trabalho. De modo semelhante, o desabotoar do colarinho no fim do dia, funciona como um ato de mandar a formalidade embora.
Neste momento em que a China chama a atenção do mundo, cabe lembrar que naquele país os botões têm características diferentes.
Enquanto o Ocidente passou séculos focado em fundir metal, esculpir ossos e perfurar discos de plástico para encaixá-los em “casas” rasgadas no tecido, a China seguiu um caminho escultural inteiramente diferente: adotou os botões de nó, conhecidos como Pankou.
O Pankou é um botão sem matéria rígida. Em vez de usar um objeto rígido externo, os artesãos chineses usam cordas do mesmo tecido da roupa para criar o fecho. De um lado, a tira é trançada firmemente até formar uma pequena esfera sólida (o nó do botão). Do outro lado, a tira forma uma alça perfeitamente moldada para abraçar essa esfera.
Na filosofia oriental do vestuário, a roupa e o botão nascem da mesma matéria. Não há separação, o fecho é uma extensão contínua do próprio traje.
A técnica de amarrar nós decorativos na China tem milênios e começou como uma utilidade prática nas vestes da dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.). Mas o ápice do botão como obra de arte aconteceu durante a Dinastia Qing (1644 – 1912) e, posteriormente, nos anos 1920 e 1930 em Xangai, com a popularização do famoso vestido Qipao.
Enquanto o botão ocidental exige um buraco na roupa – o tecido precisa ser cortado, para que o botão passe - o Pankou chinês não fere o tecido; ele repousa sobre as bordas da roupa, unindo as duas partes com leveza.
Abotoar um Pankou exige delicadeza, pois os nós de seda podem se desgastar se forem puxados com a violência de quem está atrasado para ir ao trabalho. Ele evoca um estilo de vida que valoriza o ritual do tempo.
Abotoar uma túnica chinesa não pode ser um gesto mecânico de pressa moderna; é sempre um exercício de paciência e reverência.
A expressão “Conversar com seus botões” significa refletir, ponderar ou dialogar consigo mesmo.
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