A GATA E O AGENTE
A GATA E O AGENTE.
O filme “O Agente Secreto”, além de abordar acontecimentos do período da ditadura militar, trouxe várias informações cifradas que se reportam à memória do diretor Kleber Mendonça Filho sobre aquele período, a exemplo das referências aos filmes que marcaram a sua juventude.
Dentre as referências mais cifradas trazidas pelo filme, destaca-se a presença de uma gata que tem duas faces. A dona da casa trata-a como se fossem duas gatas e as chama LIZA e ELIS.
Alguns críticos afirmaram que a gata personifica o estado de paranoia e vigilância do Brasil de 1977. Sob uma ditadura, as pessoas e as coisas raramente são o que parecem ser. O próprio personagem Marcelo/Armando vive uma vida dupla.
A gata de duas faces conecta as duas linhas temporais do filme: a narrativa de suspense no passado e a pesquisa acadêmica no futuro.
A gata funciona como um Janus moderno da narrativa. Uma guardiã dos portais entre o que o Brasil foi e o que o Brasil se tornou.
Na forma de parênteses, cabe destacar que no interior do Brasil, quando alguém diz que o individuo tem duas caras, está querendo dizer que ele é falso, sem caráter.
O escritor Ariano Suassuna contava que: uma vez, uma mulher se aproximou dele e, com o intuito de ofendê-lo, disse que ele tinha duas caras. Ele, para não acusar a ofensa, fez uma brincadeira e disse: Mas é claro que eu não tenho duas caras. A senhora acha que se eu tivesse outra cara eu estaria usando essa?
Se quisermos fazer uma viagem mais longa, podemos verificar que para além das histórias jocosas, a imagem da gata de duas faces nos remete à lembrança de Janus, uma das divindades mais importantes do panteão romano. É o único deus romano não proveniente da mitologia grega.
Para entender a importância de Janus, devemos observar que ele é considerado o deus dos inícios, das portas, das passagens e dos fins. Ele preside o limiar entre dois estados: a entrada e a saída, a paz e a guerra, o velho e o novo. Por isso, ele é representado com duas faces opostas, permitindo-lhe observar simultaneamente o que ficou para trás e o que está por vir.
Sua dualidade facial é a metáfora perfeita para o tempo: a face voltada para o passado representa a experiência, a memória e a reflexão sobre o que já foi construído. A face voltada para o futuro representa a expectativa, o planejamento e o potencial do desconhecido.
Janeiro, o primeiro mês do ano, é uma homenagem direta a Janus. Ele é o guardião que abre os portões do ano novo, permitindo que a transição ocorra.
Na Roma Antiga, Janus era invocado ao cruzar portas e ao iniciar qualquer empreendimento importante, desde um negócio até um casamento. Existia um templo dedicado a ele cujas portas tinham um significado político profundo. As portas ficavam abertas quando Roma estava em guerra, significando que o deus estava “fora” ajudando os soldados. Quando as portas estavam fechadas, significava que Roma vivia um momento de paz. Era um evento raro e celebrado, indicando que o império estava em harmonia.
Para além da mitologia, Janus sobrevive como um arquétipo da dualidade humana. Ele nos lembra que a evolução exige um olhar ambivalente: é impossível caminhar para o futuro com sabedoria sem honrar as lições do passado. Ele é o deus da “escolha”, o guardião do momento crítico em que decidimos atravessar um portal e mudar de vida.
Alguns escritores utilizam a imagem de Janus quando desejam comparar situações passadas e futuras. No livro “Os Olhares de Janus”, o professor Sérgio Mascarenhas fez uso dessa imagem para destacar a evolução da ciência, em seções que denominou: Ciência e Arte, Ciência e Filosofia, Ciência e Educação, Ciência e Tecnologia, Ciência e Mitologia.
No campo específico da educação, vivemos em um limiar onde a face voltada para o passado enxerga um modelo de certezas que já não se sustenta, enquanto a face voltada para o futuro encara uma névoa de incertezas tecnológicas.
A escola das certezas e da estabilidade adota o modelo tradicional de educação construído sobre a base da previsibilidade. Os livros didáticos eram fontes de verdades duradouras. A formação do professor era linear sabia-se exatamente o que significava ser professor e quais ferramentas seriam usadas por décadas.
Na escola da incerteza e da fluidez, as novas tecnologias, especialmente a inteligência artificial e a onipresença digital, invertem essa lógica. O saber torna-se obsoleto rapidamente. O futuro aponta para uma educação onde o risco é a perda da dimensão coletiva e social da escola em prol de trilhas de aprendizagem ditadas por algoritmos.
A escola de hoje está parada exatamente no portal de Janus. Se olhar apenas para o passado, torna-se irrelevante e anacrônica. Se olhar apenas para o futuro tecnológico, corre o risco de perder a essência humana e ética.
O futuro da educação reside em usar a face do passado para preservar os valores da formação humana, da cidadania e do pensamento crítico, enquanto a face do futuro utiliza as ferramentas tecnológicas para democratizar o acesso, quebrar muros e criar novas formas de expressão.
Em tempo:
No filme, o Agente é “apenas” uma homenagem feita pelo Diretor a um seriado de TV dos anos sessenta, chamado “O Agente Secreto” (título original: Danger Man), no qual o personagem John Drake viajava pelo mundo resolvendo crimes internacionais.
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