SOBRE O PISCAR DE OLHOS
SOBRE O PISCAR DE OLHOS
José Fernandes de Lima[1]
Há quem use a expressão “piscar de olhos” como unidade de tempo. É comum ouvirmos dizer que determinado evento teve a duração de um simples piscar de olhos.
Estima-se que o piscar de olhos demora cerca de 100 a 400 milissegundos.
Do ponto de vista fisiológico, o piscar é um mecanismo automatizado de manutenção do sistema ocular. O reflexo espontâneo aciona os músculos do olho diante de ameaças físicas, correntes de ar ou toques repentinos, funcionando como um para-brisas de emergência.
A cada fechamento da pálpebra, o filme lacrimal é espalhado uniformemente sobre a córnea, nutrindo o tecido vascular, removendo detritos e mantendo a superfície óptica lisa para a refração da luz.
Nós piscamos cerca de 15 a 20 vezes por minuto. Isso significa dizer que piscamos mais de 15 mil vezes por dia.
Quando ficamos ansiosos, as pálpebras batem mais rapidamente e quando ficamos hipnotizados diante de uma tela ou absorvido por um livro, diminuímos a frequência das piscadas.
Durante o fechamento da pálpebra, a retina fica sem receber luz vinda do exterior. Nesse instante, o cérebro edita a falta de luz causada pelo piscar para que não percebamos o mundo de forma descontínua. O sistema visual suprime a percepção de apagão para manter a iluminação e a continuidade da imagem instáveis.
Durante o piscar, o tempo, a presença e a atenção são reconfiguradas. Embora a realidade recebida seja fragmentada, temos a ilusão de que a nossa consciência visual é um filme contínuo.
Ao piscar milhares de vezes por dia, nós “cortamos” a fita do mundo, mas o cérebro costura os retalhos para nos entregar a sensação de continuidade.
Se compararmos com a produção de um filme, o piscar seria o obturador da câmera.
O ato de fechar os olhos por uma fração de segundos sem receios está associado a uma fé implícita na continuidade da existência do mundo. Piscamos sem receio porque presumimos que a realidade não se dissolverá no escuro momentâneo.
Nesse sentido, o piscar parece ser uma prova mecânica de que a nossa percepção precisa de intervalos para não colapsar sob o peso do excesso de estímulos.
No mundo atual da atenção contínua, quanto mais absorvido por um estímulo visual (uma tela, um perigo, uma hipnose) estamos, menos piscamos. A atenção extrema exige a suspensão do piscar.
Dito isso, nesse mundo das atenções, determinado pelos fluxos ininterruptos de informação, o piscar assume contornos de resistência.
A relação entre o piscar humano e o olhar ininterrupto das máquinas expõe um dos choques mais profundos do nosso tempo: o confronto entre o ritmo biológico da consciência e a lógica operacional da tecnologia digital.
Enquanto a biologia humana exige o hiato, a sombra e o micro descanso para processar o real, a arquitetura digital opera sob a premissa de vigilância constante, da emissão de luz contínua e da presença sem interrupções.
As câmeras de vigilância, scanners de reconhecimento facial e algoritmos de visão computacional não piscam. A máquina não precisa de pausa porque não sofre de saturação perceptiva.
Para o ecossistema técnico, a interrupção é uma falha, enquanto para o humano, a interrupção é a própria condição de sanidade.
O piscar é a lembrança de que a percepção humana precisa da ausência para suportar a presença.
A pálpebra é uma fronteira viva: ela corta a luz, limpa a lente e concede ao cérebro uma fração de segundo de escuridão interior para sua recuperação.
O olho humano vive em pulsação contínua entre o ver e o não-ver. O piscar funciona como uma válvula de alívio. Ele nos retira do mundo para podermos continuar nele.
Essas informações precisam ser consideradas no processo educacional. A transição dos ambientes presenciais de aprendizagens para os cenários virtuais suportados por telas alterou profundamente a ecologia da atenção. Quando a mediação pedagógica ocorre por interfaces digitais, o impacto do olhar ininterrupto e da inibição do piscar deixa de ser apenas uma questão de conforto físico para tornar-se um obstáculo à aprendizagem. O ato de aprender exige atenção, mas exige, sobretudo, assimilação e esta depende da pausa.
No processo de aprendizagem, o piscar funciona como uma marcação de compasso mental. Ele sinaliza a conclusão de um microciclo de processamento de informação.
Em outras palavras, quando um estudante assiste a uma videoaula ou lê um texto em uma tela brilhante com estímulos concorrentes, a queda da taxa de piscadas reflete a saturação da carga cognitiva. O cérebro adia o piscar para não perder o fluxo visual, mas diminui a frequência da assimilação.
O aprendizado não acontece quando a tela coloniza a visão, mas no momento de escuridão e pausa em que o sujeito fecha os olhos, por alguns milissegundos, para pensar por conta própria.
Nesse sentido, a mediação pedagógica não deve buscar a captura absoluta do olhar do estudante, mas sim criar um ritmo entre a atenção e o recolhimento.
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