AS TEIAS OCULTAS DA VIDA MODERNA
AS TEIAS OCULTAS DA VIDA MODERNA
José Fernandes de Lima[1]
Vivemos uma era de convivências instantâneas. Algumas ações que praticamos no nosso cotidiano e os resultados que obtemos dessas ações escondem uma infraestrutura invisível que sustenta a vida moderna. Por trás de ações cotidianas simples como acender luzes, abrir uma torneira, ligar o fogão a gás, há uma infraestrutura invisível que sustenta estas ações. O abastecimento do carro no posto de gasolina é outro exemplo deste princípio.
Ações simples como acender luz ou abrir uma torneira dependem de redes complexas e distantes, nem sempre perceptíveis aos olhos desatentos.
Ao chegar em casa, o indivíduo aperta o interruptor e a luz irrompe instantânea, como um gesto de magia ou um comando divino. Abre a torneira e a água escorre fluida, liga o gás e o fogão ganha vida em chamas azuis, silenciosas. No posto de combustíveis, aperta um gatilho e o tanque do carro se enche sem esforço aparente.
Nada parece demandar esforço, suor ou trabalho. Mas por trás dessa ilusão de onipotência reside uma teia intrincada de engenharia humana, onde energia, água e combustíveis emergem de fontes longínquas, processados por mãos anônimas.
A eletricidade, por exemplo, nasce em usinas hidroelétricas ou térmicas distantes, é elevada em subestações para percorrer linhas de alta tensão até postes urbanos, reduzida ao medidor residencial e distribuída por disjuntores.
Ao acionar o interruptor, fecha-se um circuito: elétrons fluem, aquecem o filamento da lâmpada e a luz irrompe. Parece um milagre da física, invisível como o ar que respiramos.
Similarmente, a água da torneira vem de mananciais, ela é captada nos rios, tratada com cloro e flúor em estações de tratamento e bombeada por quilômetros de tubos e distribuídas até as nossas casas.
O gás de cozinha (GLP), engarrafado ao natural, espera em botijões ou tubos, pronto para combustão controlada. O gás é armazenado em botijões ou redes urbanas, chegando via canos pressurizados ao fogão; ao abrir a válvula e acender, mistura-se com o ar e queima, produzindo chama e fumaça visível. A ignição imediata ocorre pela faísca do acendedor, explorando a combustão controlada de moléculas voláteis.
O combustível automotivo, extraído de poços petrolíferos, refinado e transportado por oleodutos, repousa em tanques subterrâneos do posto e é sugado por bombas ao simples apertar de um gatilho.
Em todos esses casos, tudo se passa como se houvesse uma mão invisível realizadora de milagres.
Essa invisibilidade gera ingratidão: só notamos o sistema quando ele falha, quando ocorre um blecaute, uma falta d’água, uma pane no fogão.
Do ponto de vista ambiental, a invisibilidade esconde os custos do desmatamento para construção de hidroelétricas e das emissões das refinarias.
Do ponto de vista educacional, oculta a necessidade de se ensinar às crianças a “ver” essas cadeias e fomentar a cidadania.
O que parece magia resulta de redes complexas de geração, distribuição e manutenção, muitas vezes esquecidas até que um problema aconteça.
A falta dessas redes impede o estabelecimento de determinados sistemas. A consolidação do carro elétrico como padrão de deslocamento ainda esbarra na necessidade de construção de uma rede de abastecimento devidamente ramificada.
Não podemos esquecer do wifi. Hoje, é comum o indivíduo chegar no recinto e perguntar imediatamente pela senha do wifi, sem se dar conta de que por trás da internet disponibilizada há uma rede enorme de equipamentos e trabalhadores.
As pessoas, em geral, não sabem que a internet viaja por cabos submarinos que conectam Data Centers refrigerados e que consomem a energia de cidades inteiras. A internet cruza roteadores, fibras óticas e servidores. A internet é uma rede invisível. Basta um toque e o mundo surge na sua mão. Tudo se passa como se os dados brotassem do ar.
Quebrar a ilusão de que as coisas aparecem do nada requer investimentos em educação. É preciso ensinar como as coisas funcionam. É preciso reconectar as pessoas com os fatos. Sem entender como as coisas funcionam, perdemos o controle sobre nossas escolhas, desperdiçamos recursos e ignoramos crises iminentes.
Precisamos ensinar a importância de transformar a busca por conhecimento em um hábito. Perguntar sempre: de onde veio isso? Como foi feito?
Na forma de alerta, arrisco chamar a atenção do leitor para um processo que já está em andamento.
Nos últimos anos, temos aprendido a pedir comida pelos aplicativos. Abrimos um aplicativo, escolhemos a comida, damos um clique e, em alguns minutos, a comida aparece na nossa casa.
Com a normalização desse procedimento, é bem possível que, num futuro próximo, os atuais entregadores de comida se tornem uma teia tão oculta quanto são hoje as tubulações de água e de gás.
E nesta teia de distribuição de comidas os drones já estão sendo usados como veículos das novas tecnologias.
ResponderExcluirMuito interessante , oportuno e importante o artigo Prof. Lima. Parabéns, continui com essa disposição.
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