QUEM ACENDEU O VAGALUME?

QUEM ACENDEU O VAGALUME?

José Fernandes de Lima[1]

A pergunta veio de uma criança.

Quando o quintal começou a ficar coberto de sombras e pequenos pontos brilhantes piscaram no ar, ela se aproximou sem aviso, na ponta dos pés, com a simplicidade desarmante que só as crianças conseguem ter e, de repente: “Pai, de onde vem essa luzinha piscante?” 

- São os vagalumes? 

- E quem acendeu o vagalume? 

Diante da curiosidade genuína, como a demonstrada naquela pergunta, a resposta dos adultos costuma oscilar entre a fantasia (foi uma fada) e a explicação técnica (foi uma reação da luciferina com o oxigênio). Mas, ao fazer isso de forma fria, corre-se o risco de apagar a fagulha mais preciosa do pensamento humano: o espanto.

A ciência e a poesia não marcham em lados opostos da estrada; elas podem caminhar de mão dadas. A poesia dá o colorido, empresta a lente do afeto e formula perguntas bonitas. A ciência, por sua vez, aceita o convite e vai atrás das respostas, sem jamais destruir o mistério – apenas revelando que a realidade pode ser tão empolgante quanto a fantasia.

Quando descobrimos que o vagalume “acende” porque combina uma molécula chamada luciferina com oxigênio, dentro de suas células, em uma reação quase perfeita que produz luz sem desperdiçar energia em forma de calor, o milagre não desaparece. Ele se multiplica. A física e a biologia não roubam a magia do vagalume; elas explicam o arranjo da orquestra que faz a luz brilhar. 

Para além da discussão acima, vale a pena destacar que o valor dessa conversa não está em qual das duas respostas devemos escolher. Está no fato de que alguém prestou atenção no mundo.

Para uma criança, o mundo não é um cenário dado; é um evento contínuo. Ela não olha para uma aranha na parede e pensa apenas no medo, ela pergunta também como um fio tão fino suporta o peso daquele bicho. Ela não vê a chuva apenas como alguma coisa que alaga a rua e dificulta o trânsito; ela pergunta de onde vem tanta água e para onde ela vai quando a chuva acaba. A criança não aceita a obviedade do cotidiano porque o cotidiano, para ela, continua trazendo novidades. 

Com o passar dos anos, nós adultos acumulamos nomes, conceitos e utilidades para as coisas, mas, muitas vezes, nos afastamos do encantamento por elas.

Aprendemos, por exemplo, que o vagalume pisca devido à reação da luciferina com o oxigênio e essas palavras difíceis nos dão a impressão de que controlamos o fenômeno.

Passamos pelos rios, pelas plantas, pelas estrelas e pelo próprio reflexo no espelho sem uma única pergunta. O cotidiano deixa de ser poesia e vira apenas rotina. Tudo se passa como se perdêssemos a curiosidade, com o avançar da idade. 

Os pensadores, cientistas, poetas e inventores se diferenciam nesse processo, não pelo acúmulo de respostas prontas, mas pela capacidade de manter viva a curiosidade da infância. A ciência rigorosa e a poesia mais profunda nascem exatamente do mesmo lugar: do espanto diante do comum.

Desenvolver a capacidade de olhar o mundo exige pausa, exige desligar o piloto automático do olhar por alguns minutos e permitir-se perguntar o porquê das coisas mais banais. Por que o céu muda de cor no fim da tarde? Por que a folha de uma árvore tem aquele tamanho exato? O que faz a água subir pelo caule de uma planta até a última pétala?

A ciência nos dá muitas respostas bonitas e surpreendentes quando não a encaramos como uma coleção de manuais chatos, mas como a construção madura das nossas perguntas infantis. A bioluminescência do vagalume não perde o encanto quando entendemos a enzima que a produz, pelo contrário, torna-se ainda mais poética ao percebermos a precisão microscópica da natureza.

Cultivar a curiosidade na vida adulta é um ato de resistência. Estimular as crianças a perguntar é fundamental, mas o verdadeiro convite é para que nós não nos esqueçamos de escutar e, acima de tudo, de continuar perguntando.

Diante desses fatos, tomo a ousadia de sugerir ao leitor que ao ouvir uma pergunta bonita, devolva com outra pergunta que estimule à criança investigar e fantasiar antes de lhe entregar um conceito pronto. 

O maior desafio da vida adulta não é acumular certezas, mas evitar o enrijecimento do olhar. É, em última análise, manter vivo o espírito daquela criança que, no início da noite, para diante de um pisca-pisca alado e pergunta quem teve a delicadeza de acendê-lo.

 



[1] Físico e Professor

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