SOBRE O RUFAR DO TAMBOR
SOBRE O RUFAR DO TAMBOR
José Fernandes de Lima[1]
O tambor é um dos instrumentos mais antigos da humanidade, funciona não apenas como base musical, mas como recurso de comunicação, ritual sagrado e símbolo de resistência cultural. Antes da eletricidade, do telégrafo e do rádio, o tambor já era o meio de transmissão de dados mais rápido à longa distância.
Se olharmos o tambor com o olhar da física, ele é um prato cheio de ondas, pressões e vibrações.
Quando você dá uma pancada na pele do tambor, você empurra o couro para baixo. Ele volta rapidamente e fica subindo e descendo em alta velocidade. Esse movimento empurra e puxa o ar ao redor, criando ondas de pressão que viajam pelo ar até baterem no nosso tímpano. O som nada mais é do que uma vibração que se propaga.
Tambores grandes (como o bumbo ou o surdo) têm membranas maiores que movem uma quantidade enorme de ar em frequências baixas (sons graves). A pele do tambor não vibra igualmente ao mesmo tempo. Ela cria “nós” (partes que ficam paradas) e “antinós” (zonas de vibração). Bater no centro dá um som mais grave e pesado; bater perto da borda dá um som mais agudo e estalado, porque você aciona frequências diferentes da mesma membrana.
O corpo do tambor funciona como uma caixa de ressonância que amplia e molda as frequências sonoras produzidas pela membrana. Frequências graves necessitam de volumes de ar e diâmetros maiores para se propagarem com eficiência. O som do tambor varia drasticamente conforme o corpo (madeira, metal, cerâmica), a forma (cilíndrica, cônica, ampulheta) e o modo de execução (mãos, baquetas, varas).
Em muitas culturas ancestrais, o tambor é visto para além de um pedaço de madeira com couro esticado, ele é tratado como um ser vivo, com voz e alma.
No Candomblé e na Umbanda e em rituais indígenas, o batuque serve como ponto de união com os ancestrais. Ele induz ao transe, organiza a dança e chama as energias e os ancestrais. O som do tambor organiza o ambiente e junta o grupo na mesma frequência. O tambor invoca divindades, conecta os vivos aos ancestrais e induz estados alterados de consciência através de ritmos (toques) específicos. Utilizado em rituais de cura e jornadas espirituais, o ritmo constante imita a batida do coração da terra ou do útero materno, ancorando os praticantes durante rituais.
O tambor acompanha a evolução tecnológica e social da humanidade desde a pré-história. Escavações arqueológicas apontam o uso de tambores de pele desde o Neolítico (cerca de 6.000 a.C.), feitos de escavações em troncos ou cerâmicas.
O tambor desempenhou um papel central na história da guerra, atuando como o principal sistema de comunicação, ferramenta de disciplina e arma psicológica em campos de batalha muito antes da invenção do rádio ou do telefone.
Em um campo de batalhas repleto de fumaça, gritos e explosões, quando a voz de um comandante era inútil, os tambores emitiam tons graves e penetrantes que podiam ser ouvidos a grandes distâncias. Durante séculos, exércitos usaram tambores para coordenar tropas, ditar o ritmo da marcha, comandos de recuo, avanço e formação. O ritmo do tambor organizava a vida cotidiana dos soldados. Batidas específicas marcavam a alvorada, o toque de recolher, a hora das refeições e a convocação para a guarda. O tambor mantinha centenas ou milhares de homens caminhando na mesma cadência. O tambor servia para fazer pressão psicológica. O estrondo retumbante de dezenas de tambores avançando ao mesmo tempo criava a ilusão de um exército muito maior do que realmente era, espalhando pavor nas fileiras adversárias.
Os escravizados africanos trazidos para as Américas usaram o sistema de percussão como forma de manutenção de sua identidade e cultura. Em muitos locais, o uso do tambor chegou a ser proibido pelas autoridades coloniais por medo de que fosse usado para organizar rebeliões ou preservar a fé ancestral.
O tambor é, essencialmente, a primeira tecnologia de som que a humanidade inventou. Ele está no nosso DNA: antes mesmo de nascer, a gente passa nove meses ouvindo o ritmo constante do coração da mãe. Não é à toa que, quando um tambor bate, o corpo responde no automático.
Na música, o tambor dita a pulsação e se manifesta de formas muito distintas ao redor do mundo. Em todas, ele é o mestre de obras. A melodia e a harmonia podem até ser a pintura da casa, mas a percussão é o alicerce. É o tambor que diz se a música é para dançar colado, para pular ou para relaxar. Ele divide o tempo em fatias e garante que todo mundo na banda toque na mesma página. É ele que transmite aquela vontade incontrolável de balançar a cabeça o bater e pé no chão.
A música brasileira é rica em canções que celebram o tambor, transformando-o em personagem importante de nossa cultura.
Na música “Batendo o Tambor”, o cantor Alceu Valença conecta a física do coração (a batida do peito) com a tradição do maracatu e do zabumba. O tambor é mostrado como o compasso do amor e do trabalho. Ele diz assim:
Quem dera escutar meu bem chamar/
Batendo tambor/
É do baque virado dos apaixonados/
Bater o tambor/
Escutar meu bem chamar/
Com seu zabumbar que pulsa no peito/
Tambores de branco, tambores de preto
Batendo tambor/
Tambor encarnado, tambor coronário/
Coração tambor/
Tambor de trabalho, tambor operário/
Martelo tambor
Existe um som universal que avisa que algo grandioso está para acontecer: é o “rufar do tambor”. Rufar, neste caso, significa tocar o tambor de forma rápida e contínua.
O “rufar do tambor” é uma ferramenta psicológica criada para chamar a atenção.
A frase “rufem os tambores” é usada para criar suspense, expectativa e emoção antes de um grande anúncio ou revelação.
Quem usou esse conceito com maestria foram os compositores Aloísio Costa e Enéas Brittes que, na música Exaltação à Mangueira, escreveram os versos:
Todo mundo te conhece ao longe
Pelo som dos teus tamborins
E o rufar do teu tambor.....
Chegou, ô, ô, ô.....
A Mangueira chegou.........
Muito bom. Viva o atabaque.
ResponderExcluirViva o tambor!, como diz o texto é
ResponderExcluir"quase uma entidade" atravessando o tempo, guiando e encantando a humanidade.