ÁGUA COM GÁS
ÁGUA COM GÁS
José Fernandes de Lima[1]
Você já se perguntou de onde vêm as bolhinhas da água com gás? Já se perguntou o que torna a água com gás tão refrescante?
Essas perguntas se tornam atuais porque, embora existam aqueles que não gostam de nada com gás, para muitos, ela é o substituto perfeito para o refrigerante e, para outros, um gosto adquirido.
A água com gás nada mais é do que água (H2O) enriquecida com dióxido de carbono (CO2) sob alta pressão. Com o aumento da pressão, o CO2 se dissolve na água e reage quimicamente para formar ácido carbônico (H2CO3). A efervescência acontece quando ao abrir a garrafa, a pressão diminui drasticamente, fazendo com que o ácido carbônico se decomponha e o CO2 seja liberado na forma de bolhas.
Aquela picada leve na língua não é apenas física (as bolhas estourando); é também química e neurológica. O ácido carbônico (H2CO3) reduz levemente o pH da água (deixando-o entre 3 e 4). As papilas gustativas e receptores de dor (como os receptores de pimenta) detectam essa leve acidez e enviam sinais ao cérebro, interpretados como uma sensação tátil refrescante e levemente picante.
O corpo absorve a água com gás exatamente da mesma forma que a água mineral sem gás. Por isso, ela pode ser usada para a hidratação do mesmo modo que a água mineral comum. A água com gás não engorda. A água pura carbonatada tem zero calorias. O gás causa uma expansão temporária no estômago, o que pode dar a sensação de saciedade (ou um leve estufamento momentâneo), mas não causa nenhum ganho de peso. É preciso, no entanto, distinguir a água com gás das chamadas águas saborizadas, porque algumas águas saborizadas contêm açúcares, sódio ou adoçantes artificiais.
Algumas águas já “nascem” com gás devido ao vulcanismo e fontes subterrâneas termais (como em São Lourenço e Caxambu, Minas Gerais), enquanto a maioria das opções de supermercado passa por um processo industrial de carbonatação.
As primeiras águas com gás consumidas eram 100% naturais.
Durante séculos, civilizações antigas frequentavam fontes termais naturais em busca de suas famosas águas efervescentes, às quais se atribuíam propriedades medicinais milagrosas para o estômago e para a pele. O borbulhamento espontâneo ocorria – e ainda ocorre- quando a água subterrânea entra em contato com formações vulcânicas, onde a alta pressão e o calor dissolvem o dióxido de carbono (CO2) presente nas rochas antes que a água alcance a superfície. No entanto, desfrutar dessa dádiva exigia viajar até as estâncias minerais, o que tornava a água da fonte um privilégio acessível a poucos.
A virada de chave para democratizar essa bebida veio pela química no século XVIII.
Quem descobriu a forma de introduzir CO2 na água foi o cientista britânico Joseph Priestley, o mesmo responsável pela descoberta do oxigênio. Priestley morava ao lado de uma cervejaria, em Leeds, Inglaterra. Ele percebeu que o gás liberado na fermentação do malte ficava suspenso sobre os tanques. Ele colocou uma tigela de água sobre esses recipientes e notou que a água absorvia o gás, ganhando um sabor ácido e borbulhante. Em 1772, Priestley publicou a primeira técnica para injetar CO2 em água usando ácido sulfúrico e giz.
Embora Priestley tenha descoberto o método, foi o cientista amador suíço Jacob Schweppe quem transformou a experiência de bancada em uma revolução de consumo. Em 1783, Schweppe aperfeiçoou o processo ao inventar uma bomba mecânica de compressão capaz de dissolver o dióxido de carbono na água em alta pressão e em grande escala. Ele fundou em Genebra a marca Schweppes, iniciando a comercialização da água com gás engarrafada.
Um dos maiores problemas no início do processo de carbonatação era manter o gás aprisionado até que a garrafa fosse aberta - as rolhas de cortiça ressecavam e o gás escapava. Para resolver isso, foi criada a garrafa de fundo arredondado (conhecida como garrafa torpedo). Essas garrafas tinham que ser guardadas deitadas, garantindo que a água mantivesse a rolha sempre úmida e o gás bem vedado.
Inicialmente vendidas em farmácias como um tônico digestivo e revitalizante, as águas carbonatadas artificiais rapidamente conquistaram cafés, bares e praças públicas. O sucesso da carbonatação industrial não apenas permitiu levar o frescor das fontes termais para dentro de casa, mas também pavimentou o caminho para a criação dos xaropes medicinais que, décadas mais tarde, dariam origem aos refrigerantes modernos.
Hoje, a água com gás divide opiniões no almoço de domingo, é a companheira inseparável do café expresso e virou a queridinha de quem quer largar o refrigerante.
Por tudo isso, sugerimos que, ao abrir a próxima garrafa, pense sobre o que pode estar por trás daquelas pequenas bolhas.
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