DESCONFORTO VOLUNTÁRIO

DESCONFORTO VOLUNTÁRIO 

José Fernandes de Lima[1]

A busca pela comodidade é muito antiga. Nossos ancestrais precisavam economizar energia para sobreviver e em consequência dessa necessidade passaram a utilizar a chamada lei do menor esforço.  

A descoberta das tecnologias nos poupou do esforço físico e nos trouxe até os dias atuais. Agora, a revolução da informação promete nos poupar do esforço cognitivo.

Apesar do ambiente ter mudado, o nosso cérebro continua buscando o caminho do menor esforço. Temos muita facilidade para nos acostumarmos com o que é confortável. É por isso que estamos sempre em busca de novas comodidades.

A busca pela comodidade foi levada tão a sério que, nos dias de hoje, podemos contar com a comodidade de pedir comida pelo celular, controlar a temperatura do ambiente em que estamos mediante o uso de um ar-condicionado que atende ao comando de voz e podemos ouvir música ou assistir filmes selecionados por um streaming que entende, melhor do que nós, as nossas preferências.

A inteligência artificial (IA) trouxe como conveniência o acesso instantâneo à informação, a ferramentas que redigem textos, a algoritmos que filtram as coisas que nós gostamos e à automação de tarefas repetitivas. 

Embora algumas pessoas continuem insaciadas, o nível de conforto atingido pela sociedade já é bastante alto. Há inclusive quem afirme que o excesso de conforto está nos cansando. Tudo se passa como se as conveniências já não fossem suficientes para promover o mesmo nível de felicidade. 

Alguns profissionais afirmam que o excesso de comodidade pode trazer efeitos colaterais indesejados, como indicado nos exemplos a seguir:  

1 – A alimentação processada e a entrega imediata – facilitam a vida das pessoas, pois liberam tempo para outras atividades para além da cozinha. Por outro lado, podem causar obesidade e diabete tipo 2 e, no futuro, causar alterações na microbiota humana e dependência genética.

2 – Algoritmos de entretenimento – facilitam a vida das pessoas ao oferecer alternativas de entretenimento. No entanto, podem reduzir a capacidade de atenção e provocar o aumento da ansiedade e da busca por gratificação instantânea.

3 – A climatização doméstica automatizada – oferece grande conforto térmico. No entanto, pode provocar a “preguiça térmica”:  o corpo pode perder a eficiência da regulação da sua temperatura.

4 – O uso do transporte individual – propicia a nossa movimentação no momento desejado e otimiza os deslocamentos. Porém pode causar a perda de massa muscular, alterações posturais e envelhecimento precoce.

Em geral, a falta de obstáculos e o excesso de comodidade podem gerar consequências invisíveis, no sentido da criação de uma sociedade com baixíssima tolerância à frustração e pouca capacidade de resolução de problemas. Podem trazer problemas futuros, tais com: atrofia do pensamento crítico, a desorientação espacial, a perda da capacidade de debater ideias.

Em exemplos mais recentes, constatamos que delegar o pensamento a algoritmos e à inteligência artificial pode atrofiar nossa capacidade de inovação. Se não exercitamos o cérebro com o desconforto da dúvida e da busca, perdemos o domínio sobre o conhecimento.

Você ainda é capaz de encontrar um endereço na sua cidade sem a ajuda dos sistemas de navegação, baseados no GPS, tipo Waze ou Google Map?

O acúmulo de dados trazido pela IA gera um estado de letargia cognitiva: temos a ilusão de saber muito por que vimos esse assunto em algum lugar, mas perdemos a capacidade de digerir, filtrar e transformar as informações obtidas em conhecimento real. Uma espécie de “obesidade mental” decorre do consumo excessivo de informações superficiais. De tanto receber as respostas prontas e os resultados mastigados, perdemos a visão de longo alcance. 

Quando, por comodidade, deixamos de fazer certos movimentos diários, ficamos sujeitos à atrofia dos músculos e a diminuição da longevidade. Sem o exercício do pensamento crítico e da reflexão profunda, nossa mente torna-se pesada, inflamada por ansiedade e incapaz de sustentar o foco em determinado assunto.

Outra pergunta que pode ser feita é: Estamos usando a tecnologia para nos libertar para coisas maiores, ou apenas para nos tornarmos versões mais frágeis de nós mesmos?

Tão fortes podem ser esses efeitos colaterais que algumas pessoas das classes mais abastadas, que têm domínio sobre seu modo de viver, começaram a introduzir de forma proposital determinados desconfortos nas suas vidas diárias a exemplo de subir escadas, ler livros densos, passar um dia inteiro sem celular. 

Esse comportamento pode ser entendido como um desconforto voluntário, ou desconforto negociado. 



[1] Físico e Professor

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CANTAR CIÊNCIA

EDUCAÇÃO BÁSICA E SUSTENTABILIDADE

SERÁ O LÍTIO O NOVO PETRÓLEO?