SOBERANIA TECNOLÓGICA, INOVAÇÃO ENDÓGENA E SUSTENTABILIDADE
SOBERANIA TECNOLÓGICA, INOVAÇÃO ENDÓGENA E SUSTENTABILIDADE
José Fernandes de Lima[1]
Vivemos em um mundo onde a ciência e a tecnologia deixaram de ser apenas temas de laboratório para se tornarem o centro das disputas globais. Com a aceleração da digitalização, o avanço da inteligência artificial e a urgência de encaminhamentos diante da crise climática, as nações que não dominam suas próprias ferramentas tecnológicas correm o risco de ver suas desigualdades aumentarem e sua economia estagnar. Nesse tabuleiro geopolítico, o Brasil enfrenta um desafio decisivo: como transformar o conhecimento científico em bem-estar real para sua população?
A comunidade científica brasileira, atenta a essas transformações, defende que o país não pode ser apenas um espectador ou um mero importador de soluções estrangeiras. Durante a 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em 2024, consolidou-se a visão de que o Brasil precisa de um modelo de desenvolvimento sustentado em três pilares fundamentais: soberania tecnológica, inovação endógena e sustentabilidade.
Mas o que isso significa na prática? A soberania tecnológica é a capacidade de um país decidir seu próprio destino digital e industrial, sem depender exclusivamente de decisões tomadas em outros centros de poder. Já a inovação endógena refere-se à tecnologia criada "dentro de casa", aproveitando a inteligência nacional para resolver problemas que são especificamente nossos. Sem esses elementos, o crescimento econômico dificilmente será acompanhado de inclusão social.
Para tirar essas ideias do papel, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação elaborou a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI). Este documento, que passou por consulta pública no final de 2025, funciona como um guia para transformar a inovação em um instrumento de justiça social. O plano está estruturado em quatro eixos principais que explicam o "como" chegaremos lá:
1. Integração do Sistema: O primeiro foco é garantir que o conhecimento produzido em universidades e institutos retorne à sociedade como ferramentas que promovam o bem-estar e o desenvolvimento sustentável.
2. Autonomia Industrial: O segundo eixo busca fortalecer a capacidade nacional de produzir produtos de alto valor agregado, reduzindo a dependência externa e impulsionando a competitividade da "Nova Indústria Brasil".
3. Segurança e Defesa: O terceiro ponto foca na soberania em áreas críticas, garantindo que o país tenha autonomia em tecnologias de defesa e segurança nacional.
4. Direitos e Cidadania: Por fim, o quarto eixo reafirma a tecnologia como base para garantir direitos sociais, reduzir a pobreza e melhorar diretamente a vida do cidadão comum.
O documento orienta que o Brasil não deve tentar competir em todas as frentes ao mesmo tempo, mas sim focar onde já possui vantagens naturais capazes de fazer a diferença no mundo. Especialistas sugerem que temas como a bioeconomia, energias renováveis e tecnologias ambientais devem ser as prioridades máximas da nossa agenda. Temos a maior biodiversidade do planeta e uma matriz energética invejável; transformar essas vantagens em tecnologias próprias é o caminho para o protagonismo global. Além disso, a inovação social aplicada para resolver problemas básicos de saúde, saneamento e segurança deve andar de mãos dadas com a alta tecnologia.
Neste ponto, cabe salientar que nenhum plano, por melhor que seja, sobrevive sem suporte sólido. Para que o Brasil se torne uma potência tecnológica, é necessário que a ciência seja tratada como uma política de Estado, e não de governo. Isso exige:
• Infraestrutura robusta e laboratórios bem equipados;
• Valorização dos pesquisadores, evitando a "fuga de cérebros";
• Capilaridade regional, levando a inovação para todos os cantos do país e não apenas para as grandes capitais:
• Estabilidade financeira e um marco legal que seja respeitado, permitindo investimentos de longo prazo.
A ciência e a tecnologia brasileiras estão em um momento de amadurecimento. As orientações e os caminhos já foram traçados pela comunidade científica e pelo governo. No entanto, este projeto de nação só terá sucesso se houver um engajamento real da sociedade.
É preciso que cada brasileiro entenda que investir em inovação endógena não é um luxo acadêmico, mas a única forma de garantir um país mais justo, soberano e sustentável para as próximas gerações. A ciência nacional é, em última análise, a defesa da nossa própria autonomia e qualidade de vida.
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